QUEM LÊ JORGE AMADO?

ALGUMAS LEITURAS POSSÍVEIS DE SEUS LEITORES

 

Virgínia Silva – UFBA

 

 

Senhor Jorge Amado, sou uma pessoa que gosta muito de ler. Mas meu pequeno poder aquisitivo não permite gastar além da minha sobrevivência e da minha família. Como só conheço suas obras por televisão, jornais e revistas, tomei a iniciativa de pedir-lhe, se possivel, um livro seu.

 

Quem lê Jorge Amado? Que leituras podemos fazer desses leitores? Questões como essas hoje podem ser pensadas, consideradas, problematizadas por ocuparem parte da reflexão contemporânea sobre literatura. A abertura ao estudo das diferentes expressões de cultura e o interesse pela superação dos limites impostos pelas hierarquias instituídas permitem que se possa encontrar produtividade nos registros de um mundo tratado, mais freqüentemente, de forma secundária e marginalizada pela instituição oficial e acadêmica.

O trecho que inicialmente citei, retirado de uma das muitas cartas de leitores enviadas a Jorge Amado, recebidas durante as décadas de 70 a 90 e arquivadas na Fundação Casa de Jorge Amado, mostra uma mudança de postura à medida que ocorre uma valorização do universo de pessoas comuns, os leitores comuns, sua vivência, seus desejos, suas opiniões e identificação com a obra do escritor.

As cartas de Jorge Amado constituíram o corpus de investigação do Subprojeto de pesquisa intitulado Acervo Jorge Amado: surpreendentes faces e falas do leitor, parte integrante do Projeto Resgates da Memória cultural: acervos de escritores baianos. O projeto buscou delinear e avaliar a recepção das obras de Jorge Amado, visualizar e conhecer seu público consumidor, item relevante para o circuito literário. Para tanto, através de um trabalho de descrição e análise das cartas de fãs do escritor, trabalhou-se na construção do “perfil do leitor”. Ao longo deste trabalho, respondendo às questões que propus, paralelamente forneço os dados que permitirão uma percepção desse perfil.

Quando se parte para analisar as correspondências de Jorge Amado, surgem inúmeras surpresas ante as particularidades existentes. Uma delas é que o romancista é responsável por cativar um publico extremamente variado. Os leitores escrevem para expressar admiração pelo escritor e sua obra, independentemente de idade, sexo, situação econômica, nível de escolaridade e conhecimento satisfatório ou precário da obra. São cartas que falam de admiração, respeito, apreço; que trazem pedidos e sugestões. Muitas vezes, sem esperar, podemos nos deparar com um tom intimista, em que entrevemos o leitor quase como numa conversa com o escritor, ora calorosa, ora triste, ora crítica. Extremamente surpresos, notamos a confiança que o leitor deposita em Jorge Amado. Por que tudo isso acontece?

Vários são os fatores que concorrem para que Jorge Amado cative um publico tão variado. Primeiramente podemos considerar a linguagem que o autor utiliza. Muitas cartas se referem a esse assunto. Nelas o leitor consegue identificar-se, pois considera tal linguagem “fácil”, “do povo”, ou seja, assimilável por seu tom coloquial, tendendo muitas vezes à oralidade e marcada por expressões de uso regional.

Outro ponto a ser considerado são as cartas de fãs baseadas nos temas utilizados pelo autor em suas obras. É notório, em muitas cartas, uma forte identificação do leitor com a temática dos livros. Há casos em que ele se mostra profundamente tocado, seja pelas histórias de amor, seja pelo erotismo, seja por “coisas da Bahia”, pelo candomblé, chegando muitas vezes a relatar que momentos de sua vida foram evocados quando da leitura de alguns dos romances. Também há leitores que escrevem comentando a linguagem “pornográfica” do livro, dizendo inclusive haver elementos de “sexologia” e até mesmo “obstetrícia”.

Um dos maiores responsáveis pela institucionalização do próprio Jorge Amado e da profunda repercussão de suas obras, nas últimas décadas, é a sua veiculação pelos meios de comunicação de massa. Através da adaptação para novelas e minisséries de TV, do espaço obtido em jornais e revistas, do interesse de cineastas, a mídia vem cumprir um papel importantíssimo. Como conseqüência, o escritor e sua obra são projetados mais rapidamente para o imaginário de um público tão múltiplo, e que nenhum escritor jamais sonhou atingir apenas pelo meio tradicional – o livro. Pela intervenção da mídia, o escritor e suas obras deixam de existir apenas para seus leitores seletos, que, durante muitas décadas, sofreram um outro tipo de intervenção: a da imprensa, associada às questões pertinentes a atuação política do autor. Com os meios de comunicação de massa, Jorge Amado passa a tingir pessoas de variados níveis de escolaridade e de poder aquisitivo – alguns até analfabetos, mas com acesso, mesmo indireto, à obra.

Notadamente, as adaptações das obras para o cinema e televisão respondem ao fato de Jorge Amado tornar-se tão conhecido e tão procurado, não só pelos leitores, mas por “fãs”, ou seja, expectadores de mídia. Em 1975, a novela “Gabriela” é exibida pela Rede Globo. A partir da adaptação do romance para a TV, a projeção do escritor junto a um público tão diverso se faz e, conseqüentemente, o número de cartas eleva-se. Em meio a essa farta correspondência, pessoas se pronunciam quanto ao novo meio de veiculação e relatam, algumas vezes, ou que passaram a conhecer o romancista a partir de então, ou que se sentiram motivados a retomar a leitura dos livros do escritor. É o caso de uma leitora-telespectadora que, dentre outras coisas, diz: “Só quero que saibas que sou sua admiradora. Passei a me interessar pelo escritor Jorge Amado, através da novela ‘gabriela’.

Seguem-se outras adaptações de romances, como é o caso de “Tenda dos Milagres”, que, antes mesmo de ser exibida para a televisão, já causava expectativa. Um leitor assim se pronuncia: “Estou muito empolgado com o seriado a ser apresentado pela globo “Tenda dos milagres” e espero que seja fiel ao livro. Esse já é um outro tipo de recepção, pois o leitor aqui demonstra um conhecimento prévio da obra e mostra ser capaz de emitir análises comparativas. Ou seja: há leitores que, como esse, media, e com postura crítica inclusive, a veiculação das obras em duas vertentes: o livro, propriamente considerado sob sua característica primeira de publicação e sua adaptação para a TV.

As adaptações para o cinema são também assuntos para as cartas. Eis a fala de um leitor:

 

Outra obra que estou lendo atualmente é “Os pastores da noite” que foi muito bem adaptada para cinema, como “Dona Flor” e “Tenda dos milagres” (...) continue adaptando suas obras suas obras suas obras literárias para cinema, pois nela contém como em seus livros muitas coisas que nós brasileiros não conhecemos.

 

É necessário observar que, embora muitos escrevam parabenizando o escritor pelas adaptações, há quem discorde, por pensar que elas não são fiéis aos livros. O leitor se permite fazer considerações críticas e sugestões.

Um último aspecto ainda a ser considerado, também relevante para a construção do “perfil do leitor”, é a institucionalização de Jorge Amado. É significativo o número de leitores que trata o escritor como se ele fosse a “instituição Jorge Amado”, a qual concede favores, entrevistas, visitas, presentes e até mesmo dinheiro a quem lhe solicite. Muitos são os leitores que fazem pedidos a Jorge Amado. Dentre esses são costumeiros os pedidos de autógrafos, os de respostas a questionários escolares (muitos estudantes secundaristas começam a escrever para o escritor notadamente após a exibição da novela “Gabriela”); há os que pedem que o escritor os apresente a determinadas pessoas que ele conheça, como é o caso dos que pedem encontros com mães-de-santo baianas (principalmente após terem entrado em contato com livros Bahia de Todos os Santos e Tenda dos Milagres); há os que pedem máquinas de escrever, alegando o desejo de se tornarem escritores; há ainda os que pedem geladeiras, televisores e carros. Enfim, existe uma gama de registros, nos quais se pode entrever a recorrência ao romancista, quando o leitor se reconhece e identifica com o escritor e sua obra.

A partir da análise dos dados que aqui coloquei em linhas gerais, finalmente é possível entender que o estudo das formas não-privilegiadas pelo discurso oficial traz à literatura um material rico, consistente e que considera as diferentes expressões de cultura.